ESPECIAIS
 

Matando a língua portuguesa

As mudanças em todas as situações da vida são fundamentais, indispensáveis e inevitáveis. Nunca a humanidade e até mesmo a Natureza mudaram tanto quanto nos últimos 100 anos.

No princípio do século XX, praticamente nada do que temos hoje era disponibilizado. O telégrafo tinha sua vez, mas o telefone era “pré-histórico”, a televisão não existia, carros eram quase que uma carroça movida a protótipos de motores; o avião ainda estava no (aero) plano de Alberto Santos Dumont; o rádio, um ruído só.  Em 1950, o telefone já falava internacionalmente; o telex servia de documento para transações bancárias, a televisão já funcionava em rede nacional, o rádio estava no ar em longa escala e os carros voavam rasteiros a 200Km por hora nas estradas. Nos anos 70 deste mesmo século, a televisão trouxe o colorido para nossas casas e o homem já havia pisado na lua pela primeira vez.

Mais vinte anos se passaram e a humanidade tinha à sua disposição o fax, e o computador começava a entrar nos escritórios e casas de todo o mundo. Daí para a rede mundial de computadores foi um pulo. A Internet virou uma epidemia mundial e hoje praticamente fica impossível qualquer negócio sem ela, seja no comércio, na indústria, nos bancos, nas repartições públicas, nas escolas, em casa e nas faculdades. Enfim, em qualquer segmento da sociedade, um computador ligado à rede mundial é indispensável.

Mas foi ai, com o surgimento da Internet, que uma outra mudança está sendo paulatinamente executada, que é a transformação da escrita, especialmente para nós, no idioma português.

Abreviações desnecessárias

Nos dias atuais, as abreviações desnecessárias se fazem presentes indiscriminadamente a qualquer momento. Para quê abreviar palavras em espaços quando temos o tempo necessário para escrevê-las corretamente e por extenso? É na escola, na faculdade, no escritório; em bilhetes, em anotações, nos recados (torpedos) via telefone móvel, nos scraps e nas mensagens da Internet, tudo está sendo abreviado sem absoluta necessidade.

Vejamos: “Pô, s/ essa d abrv vc faz td parc q ta esc notra língua”. Não seria melhor escrever assim: Poxa, sem essa de abreviar, você faz tudo parecer que está escrevendo em outra língua. O tempo que se leva para escrever das duas maneiras é o mesmo, ta duvidando? Faça o teste, cronometre.

É admissível a abreviação quando se trata de uma conversação a ser transcrita de forma imediata. Dessa maneira poderemos posteriormente passar a limpo, escrevendo as palavras por extenso e evitando que se perca alguma fala dos personagens do diálogo.

Outra oportunidade admissível da abreviação das palavras é numa conversação via MSN, em sala de bate papo via Internet ou congêneres. Nesses casos, a abreviação se faz necessária para que possa dar mais agilidade à conversação. No caso, por exemplo, como se vê constantemente no Orkut, não há a menor necessidade de abreviar uma palavra sequer. Primeiro porque quem lá freqüenta, obviamente quase nada tem a fazer, portanto pressupõe-se que o “orkuteiro” tenha todo tempo do mundo para escrever, o que não justifica a economia das letras nas palavras. Segundo porque o espaço disponibilizado para o digitador é interminável, se acabar a quantidade de toques disponíveis para um scrap, o usuário poderá utilizar mais um espaço, novamente outro, e assim por diante.

Acredito que isso seja modismo da juventude, dos adolescentes que têm preguiça de escrever. Ler então, nem se fala. São poucos os que fazem uso da leitura constantemente. Será que estou discriminando os jovens e adolescentes? Acredito que não porque me dei o trabalho de observar esse comportamento de perto - tenho cinco filhos que me serviram de cobaias, só em casa, fora os filhos dos outros, observados em lugares que freqüento, inclusive na própria Internet, quando é possível. Contudo, concluí também que muita gente velha está seguindo por esse mesmo caminho sem a menor vergonha do pecado juvenil.

Vício de expressão inadequada

Aproveitando a oportunidade, chamo a atenção daqueles que, ao contrário de economizar como fazem na escrita, abusam do uso desnecessário de palavras e frases na linguagem falada: "Tipo assim, eu falo muito e uso, assim, palavras que gosto de falar, ?”.

Para quê o "tipo assim" o “assim” e o “né”? Ou então: "Eu vou pegar aquele balde pra poder encher de água". Se alguém vai pegar um balde, obviamente é para poder fazer alguma coisa, não precisa dizer que é pra poder. Diga apenas: Eu vou pegar o balde para encher de água. Ou ainda: "Deixa eu te perguntar uma coisa?". Essa frase consome tempo e dinheiro, principalmente se falada ao telefone celular. Não perca tempo perguntando se você pode perguntar, pergunte logo. O pior é que expressões como essas, usadas frequentemente em determinado lugar, pode contaminar a quem não fala assim.

Mas essas aberrações não param por ai. Outros vícios terríveis são utilizados, inclusive na rádio e na televisão, até mesmo por jornalistas. Trata-se do uso indiscriminado do “ai”: “Vamos apresentar ai mais uma música do Tom Jobim ai”. Isso se ouve nas rádios o dia inteiro a qualquer momento. Para comprovar, é só sintonizar numa dessas rádios populares. A maioria dos locutores, muitos deles sem nenhuma formação acadêmica, usam e abusam do pobre “ai”. Mas isso não é só direito dos locutores, os jogadores de futebol, meu Deus do céu, nem se fala, barbarizam com o coitado do “ai”. Também podemos alertar para o uso do “zero, operadora onze...”, expressão frequentemente utilizadas em rádios e televisões, geralmente do Sudeste, para informar um número de determinado telefone. Admitia-se, logo depois da implantação do sistema que essa expressão fosse utilizada por no máximo seis meses. O povo não é burro, todos já sabem que antes do número do telefone, no caso de ser uma ligação interurbana, deve-se digitar o número zero, mais o código da operadora de escolha pessoal, mais o DDD e em seguida o número do telefone. Para quê dizer isso anos depois? Esse abuso praticamente é cometido em São Paulo e no Rio de Janeiro. Na Bahia, dificilmente de ouve falar mais em “zero operadora”.

Ptanto, p/ amor d Deus, nd de abvs n/ uso, tipo assim, d frases dsncessarias, assim, p n pd prejudic o português. Qq coisa, lig p zero, operadora + 71 + n. tel q é 3329-7748. 1 abç, ai. Deixa eu te falar uma coisa, desculpa, ta? Não queria mexer com vc.

Clóvis Dragone


 

 

 
   
 

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