O delicioso falso Verão
Helo Sampaio

Uuuuuaauu! Novamente temos férias na Bahia! Tem coisa melhor que férias
escolares sob o eterno sol da Bahia? Se tem, ficou só pra você, meu bonito.
Esse nosso inverno falsificado é maravilhoso: lá um belo dia cai um pé
d’água de afogar tubarão; no outro dia, é aquele solzão de verão de causar
inveja ao sertão. Fica difícil acreditar que no dia anterior só se andava de
barco nas ruas da cidade. ETA, bela e louca Bahia!.
Eu, particularmente, tenho horror, horror mesmo, a sair com chuva.
Todos meus amigos sabem e eu digo todo dia: sou mulher de verão, meus belos, mulher de papel. Só saio com tempo bom. Mas tenho meus motivos, fortes motivos pois já nadei muito, tanto aqui, quanto em Ibicaraí e Ilhéus, lugares onde passei a infância e juventude, onde a chuva contribuía para tornar mais robusta a cultura do cacau.
Mas era muita chuva, muito frio e muita neblina em toda região. A neblina, então, dava para cortar de faca. Uma temeridade viajar ou sair cedinho de casa.
Não se enxergava um palmo além do nariz que, aliás, ficava com a temperatura de um picolé.
Até que um dia, chegou a bruxa montada na “vassoura” do mal. E a região entrou – e continua até hoje – num inferno sideral com a tal "vassoura de bruxa".
E ainda tem gente que não crê em bruxas... Bom! Eu também não creio, mas que elas existem... Ah! Existem, sim. Já foi provado.
Mas aí, eu virei mulher, exorcisei minhas bruxas e vim para a capital da Bahia, para estudar, buscar meu destino. E me apaixonei pela belezura da capital, por cada
cantinho desta cidade, pelo seu eterno Verão, seu povo gostoso, sensual. Tabaroa do interior, olhava tudo da capital com curiosidade, escarafunchava os pontos da cidade curtindo até o passeio do “buzu”, vivendo intensamente cada minuto.
Hoje, Salvador já é também a minha “terra”, a terra do meu coração, o “meu” lugar. Já não me acostumo mais a viver na minha pequena Ibicaraí. Logo tenho vontade de voltar para o burburinho da cidade grande. Salvador me atrai, me conquista, me fascina. Inda mais com essa característica de ser cidade-verão, o sol brilhando 350 dias no ano, com sexo e festa nos 365 dias, a alegria e o bom humor reinando em 25 horas por dia. “Resistir, quem há de?”, perguntaria o filósofo popular Silvio Lamenha.
E quando chega o período das férias escolares, a cidade ganha nova energia, outros ritmos, se enche de cores, de pessoas bonitas, de jovens buliçosos, as
crianças traquinando, os turistas encantados fotografando a cidade ou se apaixonando pela morenez do nosso povo.
“É tudo muito mágico, como se fosse um sonho, um filme encantador. Às vezes, custo a crer que eu estou vivendo mesmo, que não é sonho”, confessou-me a arquiteta Eni Lane, a amiga carioca que aqui passa uns dias, encantada por um tigrão da Barra e pelo belo e falso Verão.
- É sonho não, minha linda! É a Bahia, assim mesmo. Que enfeitiça, seduz, torna real por uns dias os sonhos de uma vida. Mas, cuidado, minha bonita, que quem bebe da água do coco, sente o queimor do acarajé na boca e prova o gosto dos baianos nos lábios, nunca mais esquece e vai sempre voltar - alertei a minha amiguinha.
Recomendei a ela provar a receita da deliciosa moqueca de bacalhau com mamão verde de Dadá, a negona mais bonita e risonha da Bahia, levar saudades e nunca mais esquecer os dias mágicos aqui passados. Isso, na impossibilidade de levar um baiano bem gostoso a tiracolo.
A receita é encontrada no belo livro Tempero da Dadá, organizado e apresentado por Paloma Amado; Arlete Soares fotografou os pratos feitos com amor pela Negona. A obra é um primor, com gosto de Bahia.
Vamos saborear a gostosura da Negona.
Moqueca de bacalhau com mamão verde
Ingredientes:
1k de bacalhau tirado o sal;
3 tomates picados;
2 cebolas grandes picadas;
1 mamão verde pequeno (descascar, cortar em cubinho e aferventar);
1 pimentão médio picado;
1 molho pequeno de coentro;
Suco de um limão;
Leite grosso de três cocos;
4 colheres (sopa) de azeite de oliva;
2 colheres (sopa) de azeite de dendê;
2 pimentas de cheiro;
Sal a gosto.
Modo de preparar:
- Machucar todos os temperos com limão, colocar numa panela, acrescentar o
bacalhau e o mamão e deixar descansar por meia hora (caso tenha dificuldade
com o mamão verde, pode substituir por chuchu);
- Levar ao fogo com o leite de coco e um pouco do azeite de oliva, mexendo
sempre até ferver;
- Após 15 minutos de fervura, mas antes de retirar do fogo, ainda fervente,
colocar o restante do azeite de oliva e o azeite de dendê;
- Decorar com tomate, cebola e pimentão em rodelas e folhas de coentro;
- Como boa baiana, servir com faceirice e ar brejeiro, após um momento de
amor bem curtido.






