A Explosão Dionisíaca A maior festa pagã da humanidade assume hoje, para o povo brasileiro, expressão cada vez mais viva do desespero nacional.
Percebe-se que cresce a fuga desenfreada dos embaraços do cotidiano, numa tentativa quase desesperada de escapar da realidade e realizar uma verdadeira catarse coletiva. Por essa razão, muitos dos nossos antropólogos têm se debruçado sobre o tema, disso resultando preciosos trabalhos científicos de inestimáveis valores para a compreensão do fenômeno. É que a antropologia abre possibilidade de entendimento do homem em sua totalidade, tendo como objetivo analisar seus múltiplos aspectos, além de possibilitar a compreensão das diferenças e, conseqüentemente, a versão ao etnocentrismo. Com o efeito, os antropólogos contemporâneos estão convencidos de que é imprescindível conviver com a “alteridade”, ou seja, em termos práticos, a ação do outro, entendendo-a como a expressão da individualidade de cada ser humano. Muitos fatores têm contribuído para a exacerbação da festividade carnavalesca em nosso meio, merecendo uma avaliação científica a crescente multiplicação desses folguedos e a transformação de manifestações inicialmente sagradas em verdadeiras bacanais momescas, a exemplo da Lavagem do Bonfim e da Procissão do Senhor dos Navegantes. Desses acontecimentos participam não apenas os que não dispõem de dinheiro e vivem desconfortavelmente, mas também os que tudo possuem e, aparentemente, de nada necessitam, todos os premiados pela “necessidade” de celebrar a vida, desfrutar das alegrias que lhe são oferecidas, ou divulgadas pelos meios de comunicação, a ponto de considerarem “feriados” dias que ainda são oficialmente dedicados ao labor. Sou insuspeita para fazer críticas ao Carnaval, porque não sou adepta à festa, mas tenho observado que em Salvador não há lugar para outras manifestações de alegrias, senão aquelas que trazem o soneto das orgias dionisíacas, estas que, entre nós, passaram a desvirtuar as manifestações sagradas e as celebrações cívicas e folclóricas. Aqui tudo é Carnaval, e com isso eu não concordo! Cada coisa a seu tempo e seu lugar. Dizia Ribeiro Couto, em “Conversa Inocente”, que: “O Carnaval é a única festa nacional que consola a gente do calor, da queda do mil réis, da política, dos programas de salvação pública e dos desastres de aviação militar”. Antigamente, o Carnaval precedia apenas ao período da Quaresma, especialmente os três últimos dias que antecediam a Quarta-Feira de Cinzas. Remontando as suas milenares origens, sabe-se que tais festas se realizavam desde a mais remota antiguidade do Egito, na Grécia, em Roma, nas Galhas e eram celebradas em certas datas do ano religioso. Tais eram as festas de Ísis e do Boi Alpes, as bacanais, saturnais, lupercais e muitas outras. Entretanto, nos primórdios do Cristianismo, a Igreja procurou ordenar essas festividades, limitando-se ao tempo que precede imediatamente a Quaresma. Em conseqüência dos abusos crescentes, tais como ocorreram em nossos dias, foram elas condenadas a desaparecer por longo tempo, para ressurgirem na Idade Média, especialmente em Veneza, Turim, Nice e Roma, onde, mesmo sob o regime papal, celebravam-se solguedos públicos, cuja frente se encontrava a mais alta nobreza. A imolação de um touro a Mono, a queima de fogos de artifício, torneios eqüestres, reproduções de acontecimentos históricos, carros alegóricos constituíam as principais atrações desses festejos cheios de luz e encanto. O tempo carnavalesco começava com a festa de Santo Estevão, em 26 de dezembro, terminando na Quarta-Feira de Cinzas. Adepta dos antigos carnavais da boa terra e saudosista impenitentes daqueles tempos inesquecíveis, sou testemunha presencial da sua transformação a partir dos anos 50, quando Dodô e Osmar criaram o trio elétrico, no que foram imitados, em 1957, a eles se reúne Temístocles Aragão, tocando um violão tenor, que se soma à guitarra baiana e ao violão surdo de Dodô. Foi exatamente a partir daquele instante que o grupo passou a ser propriamente denominado “trio elétrico”. Em 1952, os músicos passam a tocar de pé, postando-se sobre o caminhão. Com o passar dos anos, aparecem novos trios, configurando-se nova face do Carnaval baiano. São substituídos os préstitos dos clubes de elite e das grandes sociedades carnavalescas, o dos carros alegóricos e dos corsos. Ao mesmo dos antigos, nascidos nos séculos XIX. Proliferam batucadas por todos os cantos da cidade mais festeira do País. Desaparecem as “caretas” que me faziam muito medo na infância, os irreverentes mascarados, muitos dos quais provocavam meu pai na Rua Chile e em São Pedro, fazendo-o corar e se acabar de rir com as suas brincadeiras. Depois, foi proibido o uso do lança-perfume, até hoje utilizado apesar da interdição. O Carnaval baiano se “democratiza”, abandonando os clubes sociais e ocupando as ruas, passando a ser considerado o maior Carnaval de participação do País. Daí por diante, nos últimos anos da década de 70 e nos anos 80 e 90, os trios adquiriram maior sofisticação e desfilam em novas artérias da cidade, ocupando a Barra e depois a Ondina - seu limite até o ano passado. Os blocos, cada vez mais numerosos, e de custo elevado, evidenciam a comercialização da maior festa popular brasileira. Nos últimos anos, aparecem as arquibancadas com e sem camarotes, que são negociadas pela Prefeitura Municipal do Salvador, e adquiridas pelos que procuram conforto e visibilidade, além de possuírem recursos para adquirirem suas custosas entradas. Apesar de todas essas mudanças, sou mais o Carnaval dos meus anos de infância e juventude. Por isso mesmo, recorro as minhas fontes de emoção e recordo, com saudades, os carnavais de ontem, eternizados na minha memória. Consuelo Pondé de Sena é escritora e historiadora.
Publicou o livro “A Hidranja Azul e o Cravo Vermelho,
que reúne diversos artigos e crônicas selecionados,
entre os quais está o texto aqui publicado. |