Virginia Woolf: da aventura da alma à essência da tragédia

11/08/2010 17:41:10
da Redação

Sou Dona da Minha Alma, da famosa anglicista Nadia Fusini, não é apenas a biografia de Virginia Woolf, mas um erudito e envolvente relato que, como ressarcimento à inexistente autobiografia da autora, apresenta a invenção da escrita da vida como uma aventura da alma.

 

Sou Dona da Minha Alma

 

(Possiedo la mia anima)

Nadia Fusini

Tradução de Karina Jannini

Editora Bertrand Brasil

420 páginas

Preço: R$ 45,00

ISBN: 9788528614343

 

“Não se pode julgar, muito menos condenar alguém pela paixão — seja ela qual for — que o faz viver. A simples paixão e o desejo fogem às definições. ‘Somos pessoas complicadas, os Stephen’, escreveu Virginia a um amigo, evocando com o nome do pai a marca de seu temperamento. ‘Somos frios, exigentes, severos, de gostos muito difíceis.’ Com efeito, entre os ramos da árvore genealógica, reluziam os sinais de um temperamento tumultuoso que, em alguns casos, levou ao delírio; em outros, à depressão. Quanto a si própria, Virginia proclamou: ‘A loucura me salvou.’

Se, em seu caso, a ‘loucura’ estivesse intimamente ligada ao temperamento artístico — admitindo que exista algo como ‘uma boa loucura’, uma loucura que tenha a ver com a criação artística —, não sei nem porei minha mão no fogo. Reconheço, porém, tanto na vida como na obra de Virginia, aquele aspecto feroz do pensamento e do sentimento que se associa à melancolia. Reconheço a

inteligência rápida, a exaltação, a inebriação, a capacidade visionária, a febre, a impaciência — toda uma matéria erótica, pulsante, diferente da loucura, se não por uma questão de graus —, que é típica dos melancólicos. Reconheço a obstinada energia que a arrasta para escrever. E também o humor negro que a emudece.

E reconheço que, em companhia daquela estranha escória de artistas, escritores, homossexuais, lésbicas, deprimidos e histéricos que são seus amigos, Virginia não se sentiu sozinha. Sabia que de Strachey a Forster, Fry e Carrington, incluída até mesmo Vanessa, eram mais ou menos todos, como ela, uns ‘incuráveis’. Viviam cheios de aflições, de enfermidades, de sombras — sombras da desordem que eles próprios haviam evocado, na vontade de libertar-se do passado. De resto, Byron tinha dito de si e de seus amigos poetas: nós que temos esse ofício somos todos loucos; alguns são acometidos pela alegria, outros pela tristeza, outros pela melancolia, outros ainda pela euforia, mas somos todos mais ou menos ‘atingidos’.”

 

A autora dá vida ao diário de Virginia Woolf, aos seus romances, às cartas e aos fragmentos de memórias, recriando, assim, todo o mundo ao redor dela: da Kensington natal, vitoriana e burguesa à vida nova no bairro boêmio de Bloomsbury; da batalha feminista ao pacifismo às posições revolucionárias sobre a literatura, a arte, a ética.

Virginia Woolf foi uma mulher inconstante ao máximo: depressiva, apaixonada pela existência. Na busca eterna pelo conhecimento ativo da alma, utilizou a literatura como uma forma de catarse. A fim de se autoconhecer e decifrar, criou os personagens como seus duplos, seus sósias.

No final, não aguentou a pressão de ser ela mesma, de viver como vivia, teve um colapso nervoso, encheu os bolsos de pedra e entrou num rio perto de sua casa.

Há um drama psicológico, uma angústia de viver, e Fusini mostra que a autora não cabe em seu próprio corpo: Woolf transborda, as palavras nascem machucadas, cheias de dor e verdade. Exatamente por esses motivos, uma das mais importantes características da literatura de Virginia Woolf é o fluxo de consciência – os monólogos internos dos personagens, quebrando o espaço-tempo, brincando com passado e presente, como se tudo fosse colocado no papel sem travas e limites. São descarregos da alma, vômitos da consciência, e, por isso, profundos, verdadeiros, viscerais e sem cortes.

Nadia Fusini apresenta um texto muito parecido com o de Woolf: difícil, mas profundo. Uma leitura inteligente. Impossível apenas correr os olhos, é preciso mergulhar.

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